Bodas de prata da morte

Bodas de prata da morte

Tem ensinamentos que ficam para toda a vida. E, às vezes, os nossos grandes mestres podem estar onde a gente menos espera.
O maior ensinamento da minha vida foi passado para mim por uma criança de seis meses: meu filho Miguel.
Nessa idade, eu cuidava dele pela manhã para a mãe dele poder estudar. Tirávamos o leite dela na noite anterior, congelávamos, e eu, pela manhã, vivia a vida doméstica cuidando dele e fazendo o almoço. Várias vezes me peguei naquela cena clássica: com a criança no colo e uma colher de pau na outra mão, mexendo a comida no fogão.
Naquela época, eu trabalhava no centro de Porto Alegre e morava no bairro Parque Humaitá, Zona Norte da cidade. Lembro que esperava a mãe do meu filho na porta de casa, já com a mochila nas costas, porque, na hora em que ela entrava, eu entregava o Miguel para ela e tinha que sair correndo para chegar no horário no serviço.
Isso quando ele não estava dormindo.
E, pela manhã, às seis horas, quando a mãe do Miguel acordava para ir estudar, muitas vezes eu ficava deitado na cama, de lado, olhando aquela criatura pequenininha, com a carinha meio amassada, dormindo sob a luz matutina.
E todas as vezes que me lembro de ter feito isso durante aquele período, invariavelmente acontecia a mesma coisa.
Miguel estava lá, deitado, dormindo. De repente, ainda com os olhos fechados, ele abria um sorriso largo. Aquele sorriso de bebê. E só depois abria os olhos. Então aquela criança de seis meses de idade ensinou seu pai, de 24 anos, uma coisa que eu acabaria levando para toda a vida:
A sorrir todos os dias antes de abrir os olhos.
Só que, naquele momento, esse ensinamento ficou meio perdido.
Depois eu tive mais um filho, antes de Miguel completar dois anos, e a vida pesada do trabalho, as obrigações familiares, a juventude com uma família já grande e precoce — três filhos — foram me tornando uma pessoa depressiva. Alguém que chegava em casa cansado, se deitava, se largava, sem demonstrar muito prazer pela vida.
Naquela época, eu trabalhava praticamente numa escala de 30 X 1. Tinha um domingo de folga por mês. Trabalhava de segunda a sábado, era iluminador de uma orquestra que fazia apresentações dois domingos por mês e ainda cumpria plantão como iluminador de televisão em outro domingo.
Eu acabava não tendo energia em casa para demonstrar mais amor, mais alegria, mais entusiasmo pelos próprios filhos.
E aí chegou um desses dias. O feriado de 7 de setembro de 2001.
Miguel havia ido à médica no dia anterior e tinha sido diagnosticado com uma virose. A pediatra receitou um antitérmico e falou que, caso ele não melhorasse até a manhã de sábado, depois do feriado, dia 8, era para levá-lo para consultar em algum plantão.
Naquela noite, a mãe dos meus filhos já estava cuidando do mais novo, que tinha cinco meses. Tinha que dar o peito, fazer dormir, cuidar do bebê, e eu fiquei responsável pelo Miguel.
Era comum eu fazê-lo dormir. Na maioria dos dias, eu me deitava com ele na cama. Às vezes dormia junto e acordava de madrugada para voltar para o meu quarto. Ele já tinha o quartinho dele, que dividia com a irmã.
Naquela noite, Miguel tinha tomado remédio para a febre. Estava com aquela virose, e eu fui me deitar com ele, como tantas outras vezes.
Só que ele não me deixou ficar na cama. Ele queria que eu saísse. Não queria que eu ficasse deitado ao lado dele.
Aquilo era estranho, porque justamente naquela noite, em que estava convalescendo, ele não queria companhia. Não queria a minha companhia.
Pedia insistentemente para que eu saísse.
Ele dizia para eu sair e dizia mais alguma coisa que, naquela hora, eu não conseguia entender direito.
Eu perguntava o que ele queria, mas não compreendia completamente o que estava dizendo. E, cansado, lhe obedeci. A febre havia baixado, mas antes de sair, deixei um copo d’água no armário do quarto. Falei para ele que, caso ficasse com sede, tomasse uma aguinha. E fui para o meu quarto.
Por volta das seis horas da manhã, a mãe dele acordou e foi até o quarto. Viu que Miguel estava deitado na cama, mas com os pezinhos para fora. Foi colocar uma coberta nele. E, quando foi cobri-lo, descobriu que ele tinha morrido naquela noite, naquela madrugada.
Provavelmente ele tinha se levantado para tomar água e, na volta, tentou subir novamente na cama, mas não teve forças para ir até o final.
Ficou ali.
Sem vida.
Dá para imaginar o que significa uma coisa dessas para uma mãe, quando percebe o que está acontecendo? E também para um pai?
Quando eu vi aquilo, além de entender que meu filho estava morto, alguma coisa da noite anterior voltou imediatamente à memória.
Foi naquele momento que compreendi a frase que ele tinha tentado me dizer e que eu não havia entendido.
Ele dizia:
— Sai que eu quero ir.
Eu perguntava:
— O que foi, meu filho?
E ele:
— Sai que eu quero ir.
Na noite anterior, eu não havia entendido aquele “quero ir”. Mas, quando o vi ali, sem vida, compreendi. Pelo menos esse foi o meu entendimento.
Era como se, de alguma maneira, ele já soubesse que iria. Como se não quisesse que eu estivesse ali ao lado dele naquele momento de partida. Como se estivesse me pedindo para deixá-lo ir.
É impossível saber o que realmente se passava. Mas foi assim que aquelas palavras se organizaram dentro de mim naquele instante.

Miguel Sério
Isso aconteceu em 2001.
E, entre todas as coisas que me ajudaram a conviver com essa perda, com essa dor, com essa coisa absurda que é você imaginar que vai acompanhar a vida inteira de alguém e, de repente, a pessoa simplesmente ir — como ele mesmo havia dito —, eu acabei me agarrando às memórias. E, entre elas, a mais forte de todas continuou sendo aquele ensinamento. Uma criança de seis meses que me ensinou a sorrir todos os dias antes de abrir os olhos.
É dramático perceber que eu só aprendi verdadeiramente esse ensinamento, com toda a intensidade, por causa da passagem prematura do meu filho. Talvez, se Miguel não tivesse partido aos dois anos, um mês e um dia de idade, eu não tivesse colocado esse ensinamento em prática com a intensidade que passei a colocar depois.
Talvez aquela lembrança do bebê sorrindo antes de abrir os olhos tivesse ficado apenas como uma cena bonita da infância.
A morte transformou a lembrança em ensinamento.
E, curiosamente, a partir da partida dele, em vez de eu ficar cada vez mais depressivo, fui ficando cada vez mais alegre, mais empolgado, mais contente com a vida.
Durante muitos anos, eu cheguei até a esquecer essas datas. Às vezes deixava passar o aniversário dele. Às vezes passava sem perceber pelo dia de sua partida para o caminho azul, o caminho das estrelas.
Os anos foram passando e as coisas foram se acomodando. A gente aprende a conviver com a dor da ausência. E confesso que durante algum tempo eu ficava até com vergonha, porque não conseguia lembrar dele com tristeza. Eu lembrava dele sempre com aquela alegria.
Era como se, na realidade, Miguel tivesse ido, mas tivesse deixado para mim o sorriso.
Comecei a perceber que esse sorriso diário talvez nem fosse meu.
É um sorriso que meu filho me deu.
E eu ficava contente em aceitar essa explicação. Em alguns momentos, chegava até a pensar que talvez a missão dele neste mundo, numa vida tão curta, tivesse sido justamente essa. Como se ele tivesse chegado aqui para olhar para aquele pai jovem, cansado, desanimado, soterrado pelo trabalho e pelas obrigações, e dizer:
“Olha, assim não dá, meu amigo. Para com essa tristeza, com esse desânimo. Dá um jeito de se animar. Dá um jeito de viver alegre. Sorria para a vida, homem!”
Porque ninguém sabe quanto tempo tem.
Há essa noção da impermanência, tão presente na filosofia budista. A morte está sempre à distância de um abraço. Ela pode nos abraçar a qualquer momento. Qualquer um de nós.
E talvez essa compreensão, essa forma tão intensa de aprender que realmente não havia muito tempo a perder, tenha feito com que eu seguisse adiante durante todos esses anos. Raramente eu me emocionava no aniversário dele, dia 7 de agosto, ou no dia de sua passagem, 8 de setembro. A ausência continuava lá, mas tinha encontrado um lugar confortável.
Até que chegou este ano.
Vinte e cinco anos depois.
Neste ano em que a morte, na minha vida, fez bodas de prata, alguma coisa aconteceu. Eu revivi tudo. E não porque tenha decidido fazer isso.
Aconteceu de uma maneira fluida, natural.
Em agosto, começou com um livro do Fabrício Carpinejar, escrito depois da pandemia, que eu havia adquirido e reencontrei por acaso: Depois é Nunca.
A ideia que atravessa o livro já está no próprio título e na provocação de que nunca saberemos quando será a última vez. A despedida talvez já tenha acontecido sem que soubéssemos que estávamos nos despedindo.
Eu já havia lido o livro. Ele trata dessa dor da perda, especialmente relacionada a pandemia da Covid-19. Mas, naquela ocasião, abri novamente o livro, dei uma folheada e parei em uma das crônicas.
Quando havia lido pela primeira vez, acho que não tinha reparado tanto nela.
Era justamente uma crônica sobre quem perdeu um filho.
E, quando li aquela crônica novamente, começou em mim esse processo de reviver a experiência da morte de Miguel. Foi o primeiro indício de que, nesse ano, 25 anos depois, alguma coisa voltaria para ser olhada com mais atenção.
A base do texto de Carpinejar parte de uma observação simples e, ao mesmo tempo, brutal: não existe um nome para quem perdeu um filho.
Existe uma palavra para quem perdeu o marido ou a esposa: viúvo, viúva.
Existe uma palavra para quem perdeu os pais: órfão.
Mas não existe uma palavra capaz de batizar, resumir ou explicar a condição de um pai ou de uma mãe que perdeu um filho. Talvez porque seja uma inversão abissal. Uma ruptura da cronologia biológica.
Em determinado momento, o autor escreve:
“Enterrar um filho é se virar sem a esperança dali por diante. O órgão da esperança foi extraído como um rim, um pulmão, clandestinamente. Uma manhã desperta-se com a costura na carne, absolutamente inconsciente do momento da cirurgia. É nunca mais cicatrizar a ferida, mantê-la aberta, como um segundo sorriso na pele. Pois a ferida é o que ficou do filho, é o que resta do filho.”
E isso é ironicamente interessante quando comparo com a minha própria história. Porque, no meu caso, parece que é exatamente isso:
a ferida aberta como um sorriso é o que ficou.
O sorriso do meu filho é o que ficou. Só que talvez nem tanto como um segundo sorriso. Mas como o primeiro.
O primeiro sorriso de cada dia.
O primeiro sorriso de todo dia.
Esse é o legado que Miguel deixou para mim.
E existe ainda uma outra diferença curiosa. Parece que, em vez de enterrar a minha esperança, de acabar com a minha esperança, a passagem dele provocou justamente o efeito contrário. Reacendeu em mim uma esperança pela vida.
Uma esperança de paz.
Uma esperança de alegria conquistada dia após dia.
Eu passei a ser alguém mais esperançoso depois de ser visitado pela morte.
Veja como uma experiência pode ser, ao mesmo tempo, aterradora, triste, abissal, indescritível, sem palavras, e ainda assim carregar tanto ensinamento, tanto conhecimento para nos ajudar a continuar enfrentando “a dor e a delícia” de sermos quem somos.
No meu caso, com mais alegria.
E eu, hoje, não tenho nenhuma vergonha de dizer que, neste período entre 7 de agosto e 8 de setembro — exatamente o período entre a data de nascimento e a data de morte de meu filho, esse um mês e um dia que ele viveu depois de completar seus dois anos —, neste ano das bodas de prata de sua morte, vivi um tempo de intensa reflexão, aprendizado e um turbilhão de sentimentos.
Um período que começou no dia 7 de agosto com a crônica de Carpinejar sobre os pais que perdem os filhos e encerrou justamente no feriado de 7 de setembro, com uma arrumação em casa que me colocou em frente a uma caixa de fotografias.
A primeira coisa que apareceu quando abri essa caixa foi uma foto dele.
Miguel pelado, brincando na lama.
E sorrindo.

Miguel correndo pelado
Aquele sorriso que jamais envelheceu.
Que mostrava exatamente o mesmo jeito de sorrir daquele bebê de seis meses que sempre sorria antes de abrir os olhos.
Depois vieram outras fotografias. Fotos dele segurando o irmãozinho. Talvez algumas das últimas fotografias dele.
Fotos tiradas um pouco antes de ele completar dois anos, ou talvez no próprio dia em que completou dois anos.
Fotografias ainda feitas com negativo. Em tom sépia. Tom de memória.
E ali estavam novamente o sorriso, o carinho, seu olhar profundo.
Foi como se esse período tivesse começado com uma reflexão sobre a morte e terminasse com uma lembrança do sorriso.


E eu, doutor Rafael, posso dizer hoje que o maior mestre, o maior ensinador de toda a minha vida, foi uma criança de seis meses.
E isso eu levo para a minha profissão e para os meus estudos. A certeza de que o conhecimento, o ensinamento, a sabedoria podem estar presentes em qualquer ser vivo, em qualquer idade.
Por isso, para mim, o verdadeiro doutor é aquele que consegue trocar sabedoria com as crianças.
Aquele que consegue aprender e tentar ensinar junto com os menores.
Porque, se não formos capazes de explicar para as crianças o que fazemos, o que pesquisamos, o que queremos para este mundo, talvez não adiante nada querer fazer isso apenas com os mais velhos.
São esses pequenos que chegam com toda essa energia, essa curiosidade, essa alegria, que muitas vezes são capazes de nos ensinar as coisas mais valiosas da nossa vida.
Miguel viveu dois anos, um mês e um dia. É um tempo absurdamente curto quando medido pelo calendário.
Mas talvez uma vida não possa ser medida apenas pela quantidade de anos que durou.
Talvez também tenha que ser medida pelo que deixou.
E o que Miguel deixou chegou até aqui.
Vinte e cinco anos depois.
Está na maneira como eu olho para a vida.
Está na maneira como compreendo a morte.
Está na forma como percebo a impermanência.
Está naquilo que tento ensinar e, principalmente, na disposição de continuar aprendendo.
Está no sorriso.
Eu nunca vou saber quem Miguel seria hoje.
Que homem teria se tornado, quais escolhas teria feito, quais caminhos teria seguido.
Mas sei o que aquele menino deixou em mim.
E talvez seja isso que fica destas bodas de prata da morte.
Não apenas a ferida.
Não apenas a ausência.
Não apenas a saudade.
Mas o ensinamento do meu amado filho Miguel, que segue vivo no meu sorriso.
Um sorriso que está em mim, mas é dele.
O primeiro sorriso de cada dia.
A lembrança de que, enquanto estivermos aqui, ainda podemos tentar fazer aquilo que uma criança de seis meses me ensinou há tantos anos:
Sorrir todos os dias antes de abrir os olhos.

Foto Miguel com Gatinho

Livro em homenagem aos 100 anos de Mario Kaplún reúne artigo de Rafael Gué Martini

Livro em homenagem aos 100 anos de Mario Kaplún reúne artigo de Rafael Gué Martini

O educomunicador e professor da UDESC Rafael Gué Martini participou do evento internacional em homenagem ao centenário de nascimento do comunicador uruguaio Mario Kaplún (1923-1998), um dos principais referenciais da educomunicação e da comunicação popular na América Latina. O encontro reuniu pesquisadores e instituições latino-americanas ligadas à comunicação educativa, entre elas o Centro Internacional de Estudios Superiores de Comunicación para América Latina (CIESPAL), a Associação Boliviana de Investigadores da Comunicação (ABOIC) e a Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação (ABPEducom).

As reflexões e conferências apresentadas durante o evento deram origem ao livro Centenario de Nacimiento del Comunicador Mario Kaplún Agosto 1923-2023, publicado em 2025 pela coleção Estudios Culturales y Teoría de la Información, do CIESPAL. A obra reúne artigos de pesquisadores de diferentes países da América Latina sobre o legado de Kaplún para os campos da educação, comunicação e cultura.

Entre os textos publicados está o artigo “Memorias de un aprendiz de educomunicador”, assinado por Rafael Gué Martini. No texto, o autor apresenta um exercício autobiográfico de reflexão sobre sua trajetória acadêmica e profissional inspirada pelas ideias de Mario Kaplún, articulando experiências em educomunicação, comunicação comunitária e educação ambiental no Brasil.

O artigo recupera o primeiro contato do pesquisador com a obra El Comunicador Popular, durante sua graduação em Jornalismo, em 2004, destacando como a perspectiva dialógica de Kaplún influenciou sua atuação em movimentos sociais, projetos de extensão universitária e pesquisas em educomunicação.

Ao longo do texto, Rafael também relata experiências desenvolvidas na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), em organizações da sociedade civil e em projetos de educomunicação socioambiental, como o Projeto Meros do Brasil, a Expedição Memórias do Mar e o Programa Horizonte Oceânico Brasileiro (HOB). O artigo destaca a importância da escuta, da participação comunitária e da produção colaborativa de conteúdos como princípios centrais da prática educomunicativa inspirada em Kaplún.

A publicação reforça a atualidade do pensamento de Mario Kaplún em um contexto marcado pelas transformações tecnológicas e pelos desafios da comunicação democrática na América Latina. O livro também conta com textos de pesquisadores como Gabriel Kaplún, Ismar de Oliveira Soares, Fernando Oliveira Paulino e outros autores ligados ao campo da educomunicação latino-americana.

Leia o artigo do educomunicador Rafael Gué Martni: Memorias de un aprendiz de educomunicador

Navegando pela Literacia Oceânica: A Educomunicação no Horizonte Oceânico Brasileiro

Navegando pela Literacia Oceânica: A Educomunicação no Horizonte Oceânico Brasileiro

Recentemente, tive a honra de colaborar com um estudo de caso do Programa Horizonte Oceânico Brasileiro (HOB), publicado na revista ‘Ocean Sustainability’, do grupo Nature. O estudo destaca o potencial da educomunicação em transformar nossa relação com os oceanos. Participaram da redação do trabalho junto comigo outros(as) oito autores(as), da Espanha, Brasil, Estados Unidos e Nova Zelândia.

Intitulado “Networked media and information ocean literacy: a transformative approach for UN ocean decade” (Alfabetização oceânica em mídia e informação em rede: uma abordagem transformadora para a década do oceano da ONU), o artigo apresenta o HOB como um estudo de caso que exemplifica a força da educomunicação no engajamento da sociedade civil, com foco na governança oceânica. O programa HOB, um produto do esforço colaborativo do PainelMar, foi destacado por sua abordagem única que integra a literacia de mídia e informação com a literacia oceânica, promovendo uma governança mais inclusiva e baseada em ecossistemas.

Este estudo ilumina o papel transformador que a educomunicação pode desempenhar na governança dos oceanos, sobretudo a partir do exemplo do Programa HOB. A equipe do programa, composta por mentores pesquisadores de meio de carreira, profissionais do oceano no início de carreira, ativistas, consultores e estudantes de graduação, supervisionou o envolvimento voluntário de mais de 200 membros de redes e instituições de pesquisa e defesa marinhas em todo o Brasil​

A metodologia transversal adotada pelo programa foi a educomunicação, uma abordagem regional de literacia em mídia e informação, que possibilitou o co-design, implementação e avaliação junto aos participantes. O processo de co-produção gerou uma série de materiais informativos temáticos, incluindo os volumes “Ampliando o Horizonte da Governança Inclusiva para o Desenvolvimento Sustentável do Oceano Brasileiro” e “Os horizontes de impacto 2030 da Cultura Oceânica Brasileira gerados pela ação educomunicativa inter-redes“. Fruto do trabalho de oito times de pesquisa-ação, esses materiais fortaleceram estratégias de advocacy pela região costeira brasileira. Advocacy é a prática de influenciar decisões dentro de instituições políticas, sociais e econômicas para promover uma causa, ideia ou política específica.

Figura 2 – Representação das múltiplas questões de sustentabilidade oceânica abordadas pelas equipes de pesquisa-ação durante o programa de quatro anos “Horizonte Oceânico Brasileiro” (2019-2022), utilizando uma abordagem de Educomunicação em rede.

O que este artigo nos revela é que estamos no caminho certo, empregando a educomunicação para cultivar uma relação mais profunda e responsável com nossos mares. As abordagens de literacia oceânica baseadas em redes de mídia e informação podem capacitar os participantes do ecossistema mais amplo da Década do Oceano a navegar eficazmente o espectro completo de questões relacionadas à sustentabilidade oceânica. Este estudo atesta a interconexão entre a ciência, política e prática oceânicas, como um lembrete poderoso de que a literacia vai além da compreensão — ela é também ação e transformação.

Estamos diante de uma realidade onde a educomunicação se torna uma perspectiva essencial para decifrar o código dos oceanos, permitindo-nos não apenas entender, mas também participar ativamente na sua preservação. O HOB é um exemplo brilhante dessa aplicação, onde a educomunicação é usada para engajar profissionais e a comunidade em uma governança oceânica mais inclusiva e baseada em ecossistemas. Em conclusão, o artigo argumenta convincentemente que abordagens de literacia oceânica baseadas em redes de mídia e informação, que integram pensamento crítico, fontes de conhecimento diversas e estratégias colaborativas, são capazes de capacitar os participantes do ecossistema mais amplo da Década do Oceano. Esta abordagem aborda grupos-chave de desafios – conhecimento, infraestrutura e desafios fundamentais – promovendo soluções inovadoras para a sustentabilidade oceânica.

A educomunicação emerge, assim, como uma epistemologia do Sul para o fortalecimento de uma cidadania global consciente e ativa na governança dos oceanos, celebrando a diversidade cultural e social e, em última instância, aprimorando a resiliência comunitária e a capacidade transformadora – especialmente para as comunidades costeiras historicamente marginalizadas.

Convido você a mergulhar neste estudo e explorar como a educomunicação pode moldar o futuro da literacia oceânica e da governança dos nossos preciosos recursos marinhos. Juntos, podemos construir a Década dos Oceanos que necessitamos para o oceano que aspiramos, para o Brasil e para o mundo.

Agradecimentos

A implementação do programa HOB do PainelMar teve o patrocínio do Grupo Fundação Boticário, do Instituto Linha D’Água e administração do Instituto Costa Brasilis​. Também foi beneficiada por uma bolsa do SDG Lab do projeto Global Hub Japan da Future Earth. A redação e publicação do artigo foi possível graças ao protagonismo do colega Leopoldo Cavaleri Gerhardinger e o financiamento do projeto TRADITION, apoiado pelo Conselho Europeu de Pesquisa (ERC) sob o programa de pesquisa e inovação Horizonte 2020 da União Europeia. O TRADITION é desenvolvido pelo Instituto de Ciência e Tecnologia Ambiental e o Departamento de Pré-História da Universidade Autônoma de Barcelona, ES.

Curso de Educomunicação gratuito na SBPC

Curso de Educomunicação gratuito na SBPC

Nos 75 anos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), foram disponibilizados vários cursos gratuitos em sua plataforma, de áreas variadas. Entre os cursos disponíveis há um sobre Educomunicação e Comunicação Pública da Ciência (cód. WMC5-52). O curso é autoinstrucional e foi elaborado por Diogo Lopes de Oliveira (UFCG), Graciele Almeida de Oliveira (FCC) e Rafael Gué Martini (UDESC) no ano de 2022, quando foi ofertado durante a 74˚ Reunião Anual da SBPC (veja matéria sobre a 1ª edição do curso).
Devido ao sucesso do curso em 2022, a SBPC contatou a equipe para ofertá-lo novamente este ano. A diferença é que não vai haver um encontro síncrono com os autores e a autora, com todo o conteúdo concentrado nas seis horas de videoaulas divididas em três tópicos:
1: Bases epistemológicas da Educomunicação: uma introdução – ministrado por Rafael Gué Martini
2: Interfaces entre Educomunicação, Divulgação Científica & Comunicação Pública da Ciência – ministrado por Graciele Almeida de Oliveira
3: Estratégias em Comunicação Pública da Ciência – ministrado por Diogo Lopes de Oliveira

Autores do curso durante aula ao vivo em 2022

A Educomunicação e a Comunicação Pública da Ciência possuem diversos pontos em comum. Os principais talvez sejam o caráter social e inclusivo de suas bases epistemológicas de sustentação, a sensibilização para a importância do desenvolvimento dos pensamentos crítico e científico e suas relações com a defesa da democracia e do empoderamento de minorias. Essa relação pode proporcionar espaço de ampliação da voz e vez nos debates públicos relevantes para o exercício pleno da cidadania. Nossa proposta analisa a importância do consumo crítico dos meios de comunicação, a relevância do combate à desinformação e aos movimentos anti-ciência e os benefícios de enxergar o mundo através das lentes da ciência.
As matrículas estarão abertas até 02 de agosto.🔐O prazo para assistir as aulas é até 14/08/2023🔎Link para a inscrição🔎
I Conferência Zona Costeira de Santa Catarina

I Conferência Zona Costeira de Santa Catarina

O professor do Centro de Educação a Distância (CEAD) da UDESC, Rafael Gué Martini, participou da mesa-redonda “Educação Ambiental como estratégia transversal para o engajamento dos atores sociais na gestão costeira” durante a I Conferência Zona Costeira de Santa Catarina, dia 27 de junho em Balneário Camboriú. Em sua fala apresentou diversos projetos nos quais atuou ao longo dos últimos 13 anos, todos voltados para a região costeira e marinha. Suas reflexões foram focadas na Educomunicação Socioambiental, que é a política de comunicação para a Educação Ambiental no Brasil – definida pelo Ministério do Meio Ambiente. O evento reuniu representantes governamentais, iniciativa privada, especialistas e sociedade civil. O objetivo foi refletir e estabelecer diretrizes frente aos conflitos na zona costeira. 

 No dia 28/06, o professor Rafael participou também de uma dinâmica coletiva, para iniciar a definição de um Sistema de Indicadores do estado da qualidade ambiental e bem-estar da zona costeira. Os indicadores de natureza ambiental, social, econômica, territorial e de governança serão definidos até outubro de 2023 e divulgados anualmente. A prorposta é que a Conferência aconteça a cada dois anos, para avaliar a evolução e revisar o Sistema de Indicadores para a Zona Costeira de Santa Catarina. Com isso, se espera apresentar um panorama atualizado para orientar as tomadas de decisão sobre o litoral catarinense. Como apoiadora do evento, a UDESC contou com outros participantes no evento, como o Prof. Danilo Melo, do Centro de Educação Superior da Foz do Itajaí (CESFI). 

A I Conferência Zona Costeira de Santa Catarina foi promovida pela Associação Catarinense das Fundações Educacionais (ACAFE) e realizada no campus de Balneário Camboriú da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI), nos dias 26 a 28 de junho. Durante este período foram debatidas questões nas áreas do turismo, urbanização, educação ambiental, cultura oceânica, recursos hídricos e saneamento. Foram realizadas 16 palestras com a participação de palestrantes representantes da academia, iniciativa privada e sociedade civil organizada. 

Rafael Gué Martini é coordenador do Laboratório de Educação Linguagem e Arte (LELA) do CEAD, doutor em educação e pesquisador da educomunicação, nas áreas da educação, saúde e socioambiental. É criador do programa de extensão Educom.Cine, que promove a educomunicação audiovisual em escolas públicas de Florianópolis. Site do professor: https://educom.jor.br/ 

Educomunicação: criação, representação e arte

Educomunicação: criação, representação e arte

Neste início de 2023 foi publicado artigo fruto da formação Educomunicação: criação, representação e arte, realizada no Seminário Internacional e Ciclo de Workshops Nacionais Educação Midiática no Combate à Desinformação: o papel da arte. Esses eventos fizeram parte da Semana da Europa 2021, organizada pela EUNIC Brasília, embaixadas e União Europeia no Brasil.

capa do livro

A coordenação do seminário e dos workshops, assim como a edição do e-book foram da Iandé Comunicação e Educação, da educomunicadora e amiga Cristiane Parente. Eu colaborei com a revisão do livro e meu artigo, escrito em parceria com o cineasta Takumã Kuikuro e a especialista em animação Jamile Coelho, está entre as páginas  54 e 72 do e-book do evento (link para o e-book na imagem da capa). Há uma versão em inglês, entre as páginas 221 e 238.

No artigo, cada autor(a) apresenta seu ponto de vista e ações envolvendo a arte cinematográfica e a educação. São depoimentos sobre experiências em aldeias do Xingu, quilombos da Bahia e escolas públicas de Santa Catarina. Relatos pessoais que demonstram as conexões entre diferentes perfis profissionais que atuam no campo da educomunicação, embora nem todos se intitulem educomunicadores ou educomunicadoras. O texto não está em linguagem científica. Se aproxima mais de uma matéria jornalística, a partir da transcrição das falas realizadas durante a formação na Semana da Europa. As referências encontram-se todas nas notas de rodapé, onde foram também disponibilizados links para filmes, sites e outros materiais indicados ao longo do texto.

Além dos artigos dos palestrantes e formadores dos eventos, há uma seção dedicada aos trabalhos finais dos participantes do Ciclo de Workshops Nacionais. Destaque para a editoração e as ilustrações que enriquecem o design da publicação. Parabéns para a Iandé Comunicação e Educação pela sua primeira publicação. Que seja a primeira de muitas outras.

Acesse o livro e leia o artigo Educomunicação: criação, representação e arte e outros que estão disponíveis.

 

Pin It on Pinterest