Bodas de prata da morte
Tem ensinamentos que ficam para toda a vida. E, às vezes, os nossos grandes mestres podem estar onde a gente menos espera.
O maior ensinamento da minha vida foi passado para mim por uma criança de seis meses: meu filho Miguel.
Nessa idade, eu cuidava dele pela manhã para a mãe dele poder estudar. Tirávamos o leite dela na noite anterior, congelávamos, e eu, pela manhã, vivia a vida doméstica cuidando dele e fazendo o almoço. Várias vezes me peguei naquela cena clássica: com a criança no colo e uma colher de pau na outra mão, mexendo a comida no fogão.
Naquela época, eu trabalhava no centro de Porto Alegre e morava no bairro Parque Humaitá, Zona Norte da cidade. Lembro que esperava a mãe do meu filho na porta de casa, já com a mochila nas costas, porque, na hora em que ela entrava, eu entregava o Miguel para ela e tinha que sair correndo para chegar no horário no serviço.
Isso quando ele não estava dormindo.
E, pela manhã, às seis horas, quando a mãe do Miguel acordava para ir estudar, muitas vezes eu ficava deitado na cama, de lado, olhando aquela criatura pequenininha, com a carinha meio amassada, dormindo sob a luz matutina.
E todas as vezes que me lembro de ter feito isso durante aquele período, invariavelmente acontecia a mesma coisa.
Miguel estava lá, deitado, dormindo. De repente, ainda com os olhos fechados, ele abria um sorriso largo. Aquele sorriso de bebê. E só depois abria os olhos. Então aquela criança de seis meses de idade ensinou seu pai, de 24 anos, uma coisa que eu acabaria levando para toda a vida:
A sorrir todos os dias antes de abrir os olhos.
Só que, naquele momento, esse ensinamento ficou meio perdido.
Depois eu tive mais um filho, antes de Miguel completar dois anos, e a vida pesada do trabalho, as obrigações familiares, a juventude com uma família já grande e precoce — três filhos — foram me tornando uma pessoa depressiva. Alguém que chegava em casa cansado, se deitava, se largava, sem demonstrar muito prazer pela vida.
Naquela época, eu trabalhava praticamente numa escala de 30 X 1. Tinha um domingo de folga por mês. Trabalhava de segunda a sábado, era iluminador de uma orquestra que fazia apresentações dois domingos por mês e ainda cumpria plantão como iluminador de televisão em outro domingo.
Eu acabava não tendo energia em casa para demonstrar mais amor, mais alegria, mais entusiasmo pelos próprios filhos.
E aí chegou um desses dias. O feriado de 7 de setembro de 2001.
Miguel havia ido à médica no dia anterior e tinha sido diagnosticado com uma virose. A pediatra receitou um antitérmico e falou que, caso ele não melhorasse até a manhã de sábado, depois do feriado, dia 8, era para levá-lo para consultar em algum plantão.
Naquela noite, a mãe dos meus filhos já estava cuidando do mais novo, que tinha cinco meses. Tinha que dar o peito, fazer dormir, cuidar do bebê, e eu fiquei responsável pelo Miguel.
Era comum eu fazê-lo dormir. Na maioria dos dias, eu me deitava com ele na cama. Às vezes dormia junto e acordava de madrugada para voltar para o meu quarto. Ele já tinha o quartinho dele, que dividia com a irmã.
Naquela noite, Miguel tinha tomado remédio para a febre. Estava com aquela virose, e eu fui me deitar com ele, como tantas outras vezes.
Só que ele não me deixou ficar na cama. Ele queria que eu saísse. Não queria que eu ficasse deitado ao lado dele.
Aquilo era estranho, porque justamente naquela noite, em que estava convalescendo, ele não queria companhia. Não queria a minha companhia.
Pedia insistentemente para que eu saísse.
Ele dizia para eu sair e dizia mais alguma coisa que, naquela hora, eu não conseguia entender direito.
Eu perguntava o que ele queria, mas não compreendia completamente o que estava dizendo. E, cansado, lhe obedeci. A febre havia baixado, mas antes de sair, deixei um copo d’água no armário do quarto. Falei para ele que, caso ficasse com sede, tomasse uma aguinha. E fui para o meu quarto.
Por volta das seis horas da manhã, a mãe dele acordou e foi até o quarto. Viu que Miguel estava deitado na cama, mas com os pezinhos para fora. Foi colocar uma coberta nele. E, quando foi cobri-lo, descobriu que ele tinha morrido naquela noite, naquela madrugada.
Provavelmente ele tinha se levantado para tomar água e, na volta, tentou subir novamente na cama, mas não teve forças para ir até o final.
Ficou ali.
Sem vida.
Dá para imaginar o que significa uma coisa dessas para uma mãe, quando percebe o que está acontecendo? E também para um pai?
Quando eu vi aquilo, além de entender que meu filho estava morto, alguma coisa da noite anterior voltou imediatamente à memória.
Foi naquele momento que compreendi a frase que ele tinha tentado me dizer e que eu não havia entendido.
Ele dizia:
— Sai que eu quero ir.
Eu perguntava:
— O que foi, meu filho?
E ele:
— Sai que eu quero ir.
Na noite anterior, eu não havia entendido aquele “quero ir”. Mas, quando o vi ali, sem vida, compreendi. Pelo menos esse foi o meu entendimento.
Era como se, de alguma maneira, ele já soubesse que iria. Como se não quisesse que eu estivesse ali ao lado dele naquele momento de partida. Como se estivesse me pedindo para deixá-lo ir.
É impossível saber o que realmente se passava. Mas foi assim que aquelas palavras se organizaram dentro de mim naquele instante.

Isso aconteceu em 2001.
E, entre todas as coisas que me ajudaram a conviver com essa perda, com essa dor, com essa coisa absurda que é você imaginar que vai acompanhar a vida inteira de alguém e, de repente, a pessoa simplesmente ir — como ele mesmo havia dito —, eu acabei me agarrando às memórias. E, entre elas, a mais forte de todas continuou sendo aquele ensinamento. Uma criança de seis meses que me ensinou a sorrir todos os dias antes de abrir os olhos.
É dramático perceber que eu só aprendi verdadeiramente esse ensinamento, com toda a intensidade, por causa da passagem prematura do meu filho. Talvez, se Miguel não tivesse partido aos dois anos, um mês e um dia de idade, eu não tivesse colocado esse ensinamento em prática com a intensidade que passei a colocar depois.
Talvez aquela lembrança do bebê sorrindo antes de abrir os olhos tivesse ficado apenas como uma cena bonita da infância.
A morte transformou a lembrança em ensinamento.
E, curiosamente, a partir da partida dele, em vez de eu ficar cada vez mais depressivo, fui ficando cada vez mais alegre, mais empolgado, mais contente com a vida.
Durante muitos anos, eu cheguei até a esquecer essas datas. Às vezes deixava passar o aniversário dele. Às vezes passava sem perceber pelo dia de sua partida para o caminho azul, o caminho das estrelas.
Os anos foram passando e as coisas foram se acomodando. A gente aprende a conviver com a dor da ausência. E confesso que durante algum tempo eu ficava até com vergonha, porque não conseguia lembrar dele com tristeza. Eu lembrava dele sempre com aquela alegria.
Era como se, na realidade, Miguel tivesse ido, mas tivesse deixado para mim o sorriso.
Comecei a perceber que esse sorriso diário talvez nem fosse meu.
É um sorriso que meu filho me deu.
E eu ficava contente em aceitar essa explicação. Em alguns momentos, chegava até a pensar que talvez a missão dele neste mundo, numa vida tão curta, tivesse sido justamente essa. Como se ele tivesse chegado aqui para olhar para aquele pai jovem, cansado, desanimado, soterrado pelo trabalho e pelas obrigações, e dizer:
“Olha, assim não dá, meu amigo. Para com essa tristeza, com esse desânimo. Dá um jeito de se animar. Dá um jeito de viver alegre. Sorria para a vida, homem!”
Porque ninguém sabe quanto tempo tem.
Há essa noção da impermanência, tão presente na filosofia budista. A morte está sempre à distância de um abraço. Ela pode nos abraçar a qualquer momento. Qualquer um de nós.
E talvez essa compreensão, essa forma tão intensa de aprender que realmente não havia muito tempo a perder, tenha feito com que eu seguisse adiante durante todos esses anos. Raramente eu me emocionava no aniversário dele, dia 7 de agosto, ou no dia de sua passagem, 8 de setembro. A ausência continuava lá, mas tinha encontrado um lugar confortável.
Até que chegou este ano.
Vinte e cinco anos depois.
Neste ano em que a morte, na minha vida, fez bodas de prata, alguma coisa aconteceu. Eu revivi tudo. E não porque tenha decidido fazer isso.
Aconteceu de uma maneira fluida, natural.
Em agosto, começou com um livro do Fabrício Carpinejar, escrito depois da pandemia, que eu havia adquirido e reencontrei por acaso: Depois é Nunca.
A ideia que atravessa o livro já está no próprio título e na provocação de que nunca saberemos quando será a última vez. A despedida talvez já tenha acontecido sem que soubéssemos que estávamos nos despedindo.
Eu já havia lido o livro. Ele trata dessa dor da perda, especialmente relacionada a pandemia da Covid-19. Mas, naquela ocasião, abri novamente o livro, dei uma folheada e parei em uma das crônicas.
Quando havia lido pela primeira vez, acho que não tinha reparado tanto nela.
Era justamente uma crônica sobre quem perdeu um filho.
E, quando li aquela crônica novamente, começou em mim esse processo de reviver a experiência da morte de Miguel. Foi o primeiro indício de que, nesse ano, 25 anos depois, alguma coisa voltaria para ser olhada com mais atenção.
A base do texto de Carpinejar parte de uma observação simples e, ao mesmo tempo, brutal: não existe um nome para quem perdeu um filho.
Existe uma palavra para quem perdeu o marido ou a esposa: viúvo, viúva.
Existe uma palavra para quem perdeu os pais: órfão.
Mas não existe uma palavra capaz de batizar, resumir ou explicar a condição de um pai ou de uma mãe que perdeu um filho. Talvez porque seja uma inversão abissal. Uma ruptura da cronologia biológica.
Em determinado momento, o autor escreve:
“Enterrar um filho é se virar sem a esperança dali por diante. O órgão da esperança foi extraído como um rim, um pulmão, clandestinamente. Uma manhã desperta-se com a costura na carne, absolutamente inconsciente do momento da cirurgia. É nunca mais cicatrizar a ferida, mantê-la aberta, como um segundo sorriso na pele. Pois a ferida é o que ficou do filho, é o que resta do filho.”
E isso é ironicamente interessante quando comparo com a minha própria história. Porque, no meu caso, parece que é exatamente isso:
a ferida aberta como um sorriso é o que ficou.
O sorriso do meu filho é o que ficou. Só que talvez nem tanto como um segundo sorriso. Mas como o primeiro.
O primeiro sorriso de cada dia.
O primeiro sorriso de todo dia.
Esse é o legado que Miguel deixou para mim.
E existe ainda uma outra diferença curiosa. Parece que, em vez de enterrar a minha esperança, de acabar com a minha esperança, a passagem dele provocou justamente o efeito contrário. Reacendeu em mim uma esperança pela vida.
Uma esperança de paz.
Uma esperança de alegria conquistada dia após dia.
Eu passei a ser alguém mais esperançoso depois de ser visitado pela morte.
Veja como uma experiência pode ser, ao mesmo tempo, aterradora, triste, abissal, indescritível, sem palavras, e ainda assim carregar tanto ensinamento, tanto conhecimento para nos ajudar a continuar enfrentando “a dor e a delícia” de sermos quem somos.
No meu caso, com mais alegria.
E eu, hoje, não tenho nenhuma vergonha de dizer que, neste período entre 7 de agosto e 8 de setembro — exatamente o período entre a data de nascimento e a data de morte de meu filho, esse um mês e um dia que ele viveu depois de completar seus dois anos —, neste ano das bodas de prata de sua morte, vivi um tempo de intensa reflexão, aprendizado e um turbilhão de sentimentos.
Um período que começou no dia 7 de agosto com a crônica de Carpinejar sobre os pais que perdem os filhos e encerrou justamente no feriado de 7 de setembro, com uma arrumação em casa que me colocou em frente a uma caixa de fotografias.
A primeira coisa que apareceu quando abri essa caixa foi uma foto dele.
Miguel pelado, brincando na lama.
E sorrindo.

Aquele sorriso que jamais envelheceu.
Que mostrava exatamente o mesmo jeito de sorrir daquele bebê de seis meses que sempre sorria antes de abrir os olhos.
Depois vieram outras fotografias. Fotos dele segurando o irmãozinho. Talvez algumas das últimas fotografias dele.
Fotos tiradas um pouco antes de ele completar dois anos, ou talvez no próprio dia em que completou dois anos.
Fotografias ainda feitas com negativo. Em tom sépia. Tom de memória.
E ali estavam novamente o sorriso, o carinho, seu olhar profundo.
Foi como se esse período tivesse começado com uma reflexão sobre a morte e terminasse com uma lembrança do sorriso.

E eu, doutor Rafael, posso dizer hoje que o maior mestre, o maior ensinador de toda a minha vida, foi uma criança de seis meses.
E isso eu levo para a minha profissão e para os meus estudos. A certeza de que o conhecimento, o ensinamento, a sabedoria podem estar presentes em qualquer ser vivo, em qualquer idade.
Por isso, para mim, o verdadeiro doutor é aquele que consegue trocar sabedoria com as crianças.
Aquele que consegue aprender e tentar ensinar junto com os menores.
Porque, se não formos capazes de explicar para as crianças o que fazemos, o que pesquisamos, o que queremos para este mundo, talvez não adiante nada querer fazer isso apenas com os mais velhos.
São esses pequenos que chegam com toda essa energia, essa curiosidade, essa alegria, que muitas vezes são capazes de nos ensinar as coisas mais valiosas da nossa vida.
Miguel viveu dois anos, um mês e um dia. É um tempo absurdamente curto quando medido pelo calendário.
Mas talvez uma vida não possa ser medida apenas pela quantidade de anos que durou.
Talvez também tenha que ser medida pelo que deixou.
E o que Miguel deixou chegou até aqui.
Vinte e cinco anos depois.
Está na maneira como eu olho para a vida.
Está na maneira como compreendo a morte.
Está na forma como percebo a impermanência.
Está naquilo que tento ensinar e, principalmente, na disposição de continuar aprendendo.
Está no sorriso.
Eu nunca vou saber quem Miguel seria hoje.
Que homem teria se tornado, quais escolhas teria feito, quais caminhos teria seguido.
Mas sei o que aquele menino deixou em mim.
E talvez seja isso que fica destas bodas de prata da morte.
Não apenas a ferida.
Não apenas a ausência.
Não apenas a saudade.
Mas o ensinamento do meu amado filho Miguel, que segue vivo no meu sorriso.
Um sorriso que está em mim, mas é dele.
O primeiro sorriso de cada dia.
A lembrança de que, enquanto estivermos aqui, ainda podemos tentar fazer aquilo que uma criança de seis meses me ensinou há tantos anos:
Sorrir todos os dias antes de abrir os olhos.



